Apresentador que pediu demissão ao vivo tentou suicídio por humilhação



No processo que está movendo contra o Grupo Edson Queiroz, dono da TV Verdes Mares, afiliada da Globo no Ceará, e a própria emissora carioca, o radialista Kaio Cezar relata com detalhes algumas das situações que fizeram com que ele pedisse demissão ao vivo durante uma edição do "Globo Esporte" em fevereiro.

No processo protocolado no último dia 16 de março, no Tribunal Regional do Trabalho da 7º Região, em Fortaleza (CE), Kaio cita inúmeras situações de assédio e dificuldades. Seus advogados e ele relatam que ele foi cobrir a Copa do Mundo de 2018, na Rússia, sem hospedagem definida e sem valores de diária para alimentação e outros gastos.

Segundo a sua versão, a Verdes Mares lhe deu uma ajuda de custo de R$ 10,5 mil para todo o período que ficou no país europeu. A hospedagem teve de ser definida de última hora, em um aplicativo de aluguel de apartamentos. A Verdes Mares argumentava que ele teria de assinar um documento em Fortaleza para receber as diárias, o que naquele momento, era impossível.

Kaio relata que, na segunda semana de cobertura, sua equipe e ele foram despejados da residência informal que ficaram, por conta dos horários incomuns que chegavam e do barulho que faziam ao guardarem todo o equipamento no local. Por uma noite, Kaio e os colegas tiveram que se alocar no Centro de Imprensa da FIFA, pois não tinham para onde ir.

O radialista também relata inúmeras situações de assédio que sofreu do diretor Paulo César Bulhões, atual diretor de jornalismo e programação da TV Verdes Mares, ao qual acusa de impedir sua acensão profissional na empresa e de humilha-lo constantemente na frente de todos os colegas.

Em um dos casos, acontecido em 2014, Kaio teria ouvido de PC Bulhões que ele estava errado em estar casado com sua atual esposa e ter um filho com ela, pois ela já havia tido um outro garoto de um antigo relacionamento. "Esse daí é um doido, pega uma mulher com um menino e faz outro nela (sic). É um doido!", teria dito Bulhões na situação.

Tristes com o que ouviram, Kaio voltou para casa após aquele dia de trabalho chorando de tristeza, o que ele admite no processo. "Não é vergonha alguma anotar que o Reclamante foi para casa chorando ante tamanho desrespeito à sua família", diz esse trecho do processo.

Outro caso, já este de 2016, diz respeito a entrada de Kaio no bloco de esportes do telejornal "Bom Dia Ceará". Ele já substituia havia dois anos o jornalista Marcos Montenegro, que foi para o jornal noturno da casa. No processo, Kaio diz que PC Bulhões sugeriu que um estagiário da emissora, que jamais apresentou algo na TV assumisse a vaga no programa.

"Era absolutamente natural que o Reclamante assumisse o cargo daquele no Bom Dia CE. PC Norões, todavia, indicou Tom Alexandrino, estagiário esportivo sem qualquer experiência em apresentação de programas jornalísticos (ou de qualquer tipo

de programa, diga-se de passagem), para o cargo", relata os autos. Tal estagiário rejeitou o pedido e disse que Kaio é quem deveria assumir o cargo, o que aconteceu.

Contanto essas e outras pequenas humilhações diárias, Kaio assumiu que, após o que passou na Copa do Mundo da Rússia em 2018, tentou tirar a própria vida ainda na Rússia, de tão cansado que estaria dos problemas que passou na emissora.

"Após os eventos da Copa da Rússia, quando ainda estava viajando a trabalho, o Reclamante efetivamente tentou suicidar-se – tentativa que, felizmente, não logrou êxito -, o que não será descrito com detalhes em respeito à dor do Reclamante, por ser tema excessivamente delicado e sobre o qual ele não se abriu sequer com a sua esposa", diz o processo.

Contanto todos os valores de salário, diárias e pagamentos que deixou de receber, além de indenizações por dano moral, material e existencial e o pagamento dos custos do processo, Kaio decidiu pedir exatos R$ 3.873.399,10. O processo agora corre na Justiça, sem previsão para um julgamento.

Kaio Cezar pediu demissão vivo na edição do dia 16 de fevereiro, um sábado, do "Globo Esporte Ceará". Ao encerrar o programa esportivo, afirmou que não não abria mão da dignidade e do respeito para ficar em nenhuma empresa.

Em entrevista para o UOL Esporte no dia seguinte ao ocorrido, ele explicou os motivos para ter tomado a atitude. "Olha, eu não fiz cálculo para tomar a atitude. A gota d'água foi perder espaço na TV Verdes Mares. Eu ia narrar o jogo de hoje e, no meio da semana, fiquei sabendo que não narraria mais. Dentro da empresa, era um narrador que não podia narrar. Na prática era isso. Então por que ficar? Por que não me deram as contas ou fizeram um acordo quando pedi para sair? Pedi demissão no ar porque foi a única opção que me deram", explicou.





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