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OPINIÃO: Nos deram espelhos e vimos um mundo doente



O presidente Jair Bolsonaro sacudiu o país ao compartilhar um vídeo contendo cenas pornográficas, chocantes  e grotescas que ocorrem com regularidade em blocos e festas de carnaval Brasil afora. A baixaria vem de longe, desde a década de 60, quando a festa se despiu do lirismo dos antigos carnavais e passou a ser tão somente, em alguns casos, suruba patrocinada com dinheiro público. Que o digam as publicações eróticas e exclusivas dos carnavais dos anos 70 e 80.

Mas o país anda tão mergulhado em poço que aparenta não ter fundo, que o repreendido passou a ser o próprio denunciante.

Invocaram a falta de decoro, o  comportamento incompatível com a seriedade do cargo, ou ainda, a falta de noção do chefe do executivo nacional, mas não se passou a mão na própria face e não se reconheceu a própria hediondez.
O brasileiro é incapaz de admitir que há algo de errado em nossa identidade como nação.


Ai daquele que tenta entregar o espelho para o brasileiro e refletir a sua natureza real. Não a idílica, preenchida por elogios mil de artistas e diplomatas empalhados, mas a natureza real.

O Brasil é um país de hipócritas. O Brasil é uma nação que forjou um povo aparentemente incapaz de julgar segundo a reta justiça. O Brasil é deprimente. O Brasil e o brasileiro arrasam com qualquer boa intenção. O Brasil enlouquece. O Brasil inveja. O Brasil corrompe. O Brasil inferniza. O Brasil achaca. O Brasil destrói, rouba e mata qualquer desejo de se fazer algo que preste por ele.

Eis que dois marmanjos encenam em plena luz do dia cenas dignas de um pornô gay e os cínicos bradam: "é carnaval... Queria o quê?", " Por que não compartilhou o silêncio que fizeram pra que uma mãe encontrasse seu filho perdido em um bloco?", "Por que não ficou calado?", "Isso lá é coisa pra presidente se preocupar ?", "Lógico que esse tipo de coisa acontece...".

Escamotear a realidade é a obra-prima do brasileiro. E nesse doutoramento, a turba toda vai atrás: a mídia, os falsos-moralistas, os adversários, os professores, os religiosos, o povo.

O Brasil faz qualquer um desistir.

Mas ninguém parou pra dizer de olho rútilo e peito aberto:"aquilo é uma baixaria! Nós não somos isso! Isso não nos orgulha! Isso nos humilha e nos envergonha pela simples razão de que as cenas denigrem a dignidade dos seres humanos!". Não, não houve ninguém.

O que há de belo, cultural e festivo em um ser humano urinar na cabeça do outro, em plena praça pública, após masturbar-se introduzindo o dedo no ânus, aos olhos do planeta inteiro? O que há de errado em fazer esta óbvia pergunta? Quão profunda é a insensibilidade e inversão moral do Brasil, ao ponto de repreender quem intenta provocar essa espécie de reflexão e não quem protagoniza esse tipo de espetáculo? O crime do presidente foi ultrapassar a esfera do pragmatismo administrativo e propor uma reflexão de costumes à nação?
Talvez ele tenha feito isto, porque os que possuem delegação institucional para tanto não o fizeram!

É uma lástima. O Brasil é um longo e profundo lamento.  Nos deram espelhos e vimos um mundo doente. Entretanto, tal e qual os versos de Renato Russo na canção, não houve contrição, não houve reflexão, não  houve vergonha. O brasileiro, dormente e habituado a baixarias de toda ordem, apenas "tentou chorar ...e não conseguiu".




Julliana Veloso

Jornalista, publicitária e Mestre em Linguística. 
Atualmente, apresentadora do programa Sem Censura da Rádio Pop FM.



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