STEVE BANNON: Liberdade de Lula trará 'enorme perturbação' ao Brasil




Em seu primeiro comentário sobre a libertação do ex-presidente Lula e seus impactos no governo de Jair Bolsonaro, o principal articulador da nova direita internacional, Steve Bannon, classifica o petista como "o maior ídolo da esquerda globalista do mundo" desde a saída de Barack Obama do governo dos EUA, e afirma que sua volta às ruas trará "enorme perturbação política ao Brasil".

Em entrevista exclusiva à BBC News Brasil, o CEO da campanha de Donald Trump à presidência e ex-estrategista-chefe de governo do republicano chama Lula de "cínico e corrupto", diz que o petista foi corrompido pelo poder e sugere que seu retorno significará a "volta da corrupção" ao Brasil.

"Agora que está livre, Lula vai virar um imã para a esquerda global se intrometer na politica brasileira. Ele é o "poster boy da esquerda globalista", diz.
O americano, por outro lado, avalia as investigações sobre o uso de laranjas no PSL e suposto caixa 2 na campanha de Bolsonaro à presidência como "puro non-sense" e uma tentativa do establishment de boicotar o governo. "Aconteceu o mesmo com Trump."

Na visão de Bannon, que cancelou recentemente viagens ao Brasil, à Inglaterra, à Itália e à Austrália para estruturar uma força-tarefa contrária ao processo de impeachment contra Trump, nos EUA, é "bastante evidente" que o STF (Supremo Tribunal Federal) agiu para atrapalhar Bolsonaro ao decidir que réus só devem ser presos após se esgotarem as possibilidades de recursos - o que permitiu a libertação de Lula da carceragem da Polícia Federal, em Curitiba, na última sexta-feira.

"O Brexit, 2016 (eleição de Donald Trump) e Bolsonaro são fatores intrinsecamente ligados", repete Bannon durante toda a entrevista. "Essas coisas (o impasse sobre a saída do Reino Unido da União Europeia e o impeachment contra Trump) mostram a ordem estabelecida se recusando a reconhecer o poder desse movimento populista e nacionalista."

Questionado sobre se estes revezes, somados à volta da esquerda na Argentina e a derrota do aliado Matteo Salvini, na Itália, representaria a derrocada da onda da direita nacionalista populista, Bannon reconhece "obstáculos no caminho", mas reage com as habituais críticas à imprensa.

"Isso é ilusão. nós ainda estamos nos primeiros passos, isso é uma revolução", diz

Para Bannon, a liberdade de Lula pode ajudar a consolidar a base de apoio de Bolsonaro em torno da aprovação de reformas, ao mesmo tempo em que pode unificar a esquerda em torno do ex-presidente.

"Mas não ache que isso não vá vir sem um preço", alerta.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

BBC News Brasil: Como estão as coisas com o processo de impeachment do presidente Donald Trump nos EUA?

Steve Bannon: Criamos um portal e estamos fazendo transmissões diárias, com notícias 24 horas, podcasts. Começamos há duas semanas porque nada estava sendo feito, não havia um local centralizado e é preciso ter para dar respostas às fake news, teorias de conspiração e de caça às bruxas. Ela (Nancy Pelosi, líder do partido democrata na Câmara dos EUA) está dando uma aula magna em guerra política. Então é preciso organizar as forças para contrapor. Isso vai ser grande, bem grande.

BBC News Brasil: A ideia nessa entrevista é ouvi-lo também sobre Bolsonaro, Lula e o que está acontecendo no Brasil.

Bannon: Veja, o Brexit, 2016 (eleição de Donald Trump) e até Bolsonaro são fatores intrinsecamente ligados. Brexit e 2016, definitivamente conectados,e Bolsonaro de forma decorrente. Você vê as mesmas coisas acontecendo. É irônico que no Halloween, em 31 de outubro, eles votaram para formalizar o processo de impeachment nos EUA no exato mesmo dia em que o Reino Unido não deixou a União Europeia como previsto, três anos depois (do referendo do Brexit).

E o voto da nova eleição geral do Reino Unido, em 12 de dezembro, vai provavelmente acontecer a poucos dias do voto do impeachment contra Trump. Acabam de definir que vai ser em meados de dezembro. Então, essas coisas mostram a ordem estabelecida se recusando a reconhecer o poder desse movimento populista e nacionalista.

E Bolsonaro, Lula e o Judiciário permitindo que Lula saia da prisão, isso vai fortalecer Bolsonaro. Acho que os seguidores dele verão a importância de continuar empurrando a agenda dele com um senso extra de urgência. Mas acho que isso vai causar uma perturbação enorme no Brasil, potencialmente enorme.

BBC News Brasil: Por quê?

Bannon: Acho que Lula é um dos políticos e indivíduos mais cínicos e corruptos no mundo. Obama se referiu a esse cara como "o cara". Literalmente, entre aspas, "o cara" e ria.

Lula é o esquerdista o mais celebrado da história do mundo. O que eu chamo reino do terror financeiro e da corrupção… Foi Lula que fez essa roda girar em conchavo com um bando de políticos corruptos brasileiros.

Lula é uma figura trágica. Dado de onde veio e sua ascensão política, havia muitas, muitas coisas boas que ele estava fazendo. Mas ele é alguém que foi corrompido por dinheiro e poder. É evidente e, para mim, isso agora vai causar uma enorme perturbação política no Brasil.

Foi o que aconteceu no Reino Unido e nos EUA. Nos EUA, Nancy Pelosi e as forças da esquerda e da ordem estabelecida forçaram os EUA a uma crise constitucional neste fim de ano, junto à temporada de feriados. No Reino Unido, há uma crise constitucional no Reino Unido. Essencialmente, haverá um segundo referendo sobre o Brexit. As forcas antidemocráticas ganharam, elas tiraram as pessoas do caminho.

A mesma coisa no Brasil, isso vai levar o Brasil a uma crise constitucional, porque agora há um líder ativo da oposição, que deveria estar preso, agora solto e pronto para dar fôlego a seu grupo e tentar impedir tudo o que Bolsonaro está tentando fazer.

BBC News Brasil: Quando o Sr. fala em enorme perturbação, está falando de que exatamente?

Bannon: Tentar parar o movimento de reformas de Bolsonaro, que claramente se contrapõe a muito da corrupção que emanava no escândalo da Lava Jato e outros. A reforma da Previdência, toda a reestruturação financeira, e a retirada da corrupção do sistema.

Segundo, acho que Lula vai tentar criar problemas sobre a Amazônia. O que ele traz consigo é uma rede da esquerda marxista e cultural. Traz os recursos, os globalistas, e traz na forma de um populismo de esquerda. Mas ele é um globalista e eles sempre o apoiaram. Particularmente nesse momento sensível, as forcas globalistas vão tentar interferir nos direitos absolutamente nacionais da população brasileira, que tem o direito de tomar conta da Amazônia.

BBC News Brasil: O Sr. acha que este cenário permitiria ao presidente Bolsonaro eventualmente escalar a repressão policial ou militar?

Bannon: Não, de jeito nenhum. Acho que Lula vai fortalecer as forças populistas de Bolsonaro para dizerem "Temos que fazer essas reformas o quanto antes". Acho que isso é um tiro que ajuda a consolidar o controle de Bolsonaro e colocar um senso de urgência a seus seguidores.

Agora que está livre, Lula vai virar um imã para a esquerda global se intrometer na politica brasileira. Ele é o "poster boy da esquerda globalista". Entre todos no mundo, ele é o maior ídolo, agora que Obama está fora da política. E até Obama se referiu a ele. Com Lula, toda a corrupção antiga vai voltar.

BBC News Brasil: Para muitos analistas, a saída de Lula da prisão aumentaria a polarização no Brasil e isso poderia ser positivo para o presidente Bolsonaro, já que ele enfrenta problemas dentro do seu próprio partido…

Bannon: Espere, espere. Previ a vitória de Bolsonaro quando ele tinha 5% das intenções de voto e disse que ele ganharia quase no primeiro turno. Acho que é positivo por mostrar que é preciso haver urgência e consolidação em torno de Bolsonaro e de seu projeto, mas não acredite que isso não vá vir sem um preço.

A razão de ser preciso mostrar urgência em ajudar seu programa é o fato de que ele agora vai ser desafiado por um "rockstar" internacional da esquerda globalista. Não vai ser tranquilo.

Olhe para o Reino Unido e para os EUA, os dois países estão passando por terremotos. Acho que o processo de impeachment pode potencialmente fortalecer o presidente Trump e acho que a eleição pode fortalecer o movimento de saída do Reino Unido da União Europeia, mas é um teste, é desestabilizador e ninguém sabe no que isso vai dar. Ninguém pode prever nada, cada dia agora é importante.

BBC News Brasil: O Sr. falou em corrupção. O PSL, partido de Bolsonaro, é investigado nesse momento por mau uso de recursos durante a eleição e no pagamento a assessores.

Bannon: Também aconteceu com o presidente Trump. Isso é non-sense, tudo o que está acontecendo é tangencial às mesmas coisas que aconteceram com Trump. Lula é corrupto. É por isso que ele é tão hipócrita. ele veio da pobreza e em algum momento foi idealista. Ele é a trágica figura da modernidade, que é corrompida pelo poder, dinheiro e influencia. Lula foi corrompido e estava preso por sua corrupção e por essencialmente permitir que todos fossem corruptos no governo Dilma. Mas isso (investigações contra Bolsonaro e o PSL) vai ser rapidamente contestado.

BBC News Brasil: Mas, diferente do que acontece com o presidente Trump, Bolsonaro está tendo problemas sérios com seu próprio partido. Ele teve discussões duras e públicas com o presidente do Partido…

Bannon: Isso não é verdade, isso não é verdade.

BBC News Brasil: Mas o próprio presidente admitiu que pode deixar seu partido…

Bannon: Trump teve enormes problemas com seu próprio partido. Outro dia, (o ex-senador republicano) Jeff Flake disse que, se o voto fosse secreto, 35 senadores republicanos votariam pelo impeachment. O establishment do partido republicano tolera Trump, não apoia Trump. E lembre-se que Boris Johnson e Nigel Farage (líder do Partido Brexit) apanharam do establishment do partido Conservador, os manda-chuvas do partido não querem um partido nacionalista populista. O mesmo establishment está fazendo isso com Bolsonaro. Tudo está intrinsecamente ligado. há uma revolta populista nacionalista em escala global em nações individuais e uma ordem de demônios da ordem estabelecida vai lutar até a morte porque entende que, se nós ganharmos, vamos colocar os corruptos fora do jogo.



Foto: Gage Skidmore/Wikipedia



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