[OPINIÃO] – O ridículo do figurino eleitoral: o Nordeste noã é uma fantasia

O calendário político do Nordeste guarda uma tradição paralela e vergonhosa: a temporada em que pré-candidatos de gabinete decidem que, para conseguir votos, precisam se fantasiar. O figurino escolhido quase sempre envolve o legítimo chapéu de couro, um símbolo sagrado de resistência, suor e dignidade do homem do campo, transformado em adereço cenográfico por políticos que mal suportam o calor do sol fora de seus gabinetes gelados.

Esse espetáculo mambembe de marketing não gera identificação; gera vergonha alheia. Há uma linha nítida entre honrar as raízes e performar uma identidade que nunca pertenceu ao candidato. Quando um sujeito que passou a vida inteira transitando entre tapetes vermelhos e ar-condicionado surge em cima de um palanque ostentando um chapéu de couro impecável, sem uma única marca de poeira ou uso, o que vemos não é um líder: é uma caricatura. Falta integridade. Sobra artificialismo.

A situação atinge o ápice do oportunismo quando essas mesmas assessorias de imagem, muitas vezes importadas e desconectadas da nossa realidade, escolhem modelos de chapéu que remetem diretamente à estética do cangaço. Tentam, de forma rasteira, evocar uma aura de “valentia” ou “bravura” para o candidato da vez. É uma assimilação profundamente nociva e irresponsável. O cangaço foi um fenômeno histórico complexo, violento e doloroso para o sertão. Reduzi-lo a um mero prop de campanha para tentar transmitir uma falsa imagem de “cabra ou muié macho” é um insulto à história e à inteligência do povo.

Essa plasticidade eleitoral parte de uma premissa arrogante: a de que o eleitor nordestino é bobo e se deixa seduzir por um chapéu e uma camisa de botão social com as mangas dobradas. Não se deixa. O eleitor moderno fareja a falsidade de longe. A artificialidade grita. Ela confessa, nas entrelinhas, que o pré-candidato não tem propostas reais, não tem convivência com o povo e precisa de um disfarce para tentar parecer humano e próximo da realidade que ele claramente ignora.

O Nordeste e sua cultura não são produtos de prateleira para consumo de temporada. Nossas tradições não são fantasias de transição para o poder. Se um político precisa se vestir de um personagem que ele nunca foi para pedir votos, ele já começa a sua jornada sob o signo da mentira. O legítimo chapéu de couro, moldado pelo trabalho de quem realmente sangra pela terra, merece respeito. E o respeito começa quando os oportunistas de plantão deixam o adereço em paz e passam a apresentar propostas, em vez de fantasias.

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