Iratembé e a Copaoba: historiadores do Neabi-UEPB, campus III, publicam artigo sobre a fabricação do mito de fundação da Paraíba

Foi lançado recentemente um estudo que buscou analisar o processo de construção de um mito de fundação da Paraíba envolvendo uma indígena mencionada por Frei Vicente do Salvador no século XVII, em sua obra História do Brasil. A personagem está relacionada à narrativa que ficou conhecida como “Tragédia de Tracunhaém”, episódio que, ao longo do século XX, foi eleito por parte da historiografia paraibana como marco fundador da Paraíba. Segundo o artigo, entretanto, essa interpretação vem sendo contestada por diversos estudos publicados nas últimas duas décadas.

O texto demonstra como, ao longo do tempo, essa indígena foi sendo construída, interpretada e nomeada por diferentes discursos. De acordo com os autores, por exemplo, o nome “Iratembé” foi atribuído à personagem sem que exista qualquer fonte histórica dos séculos XVI ou XVII que sustente essa hipótese. Ainda assim, a denominação é amplamente divulgada, muitas vezes sem qualquer indicação de que se trata de uma nomenclatura criada posteriormente e sem respaldo documental.

Além disso, o município de Serra da Raiz-PB, por meio de suas redes sociais, insiste em afirmar que a aldeia chefiada por Iniguaçu, chefe indígena que, segundo Frei Vicente do Salvador, liderava uma aldeia na Copaoba, estaria localizada em seu atual território. Até o momento, porém, nenhuma fonte histórica corrobora essa hipótese. O mais provável é que Serra da Raiz seja apenas mais um entre os vários municípios do Agreste paraibano que se desenvolveram em um território que, durante o período colonial, era conhecido como Sertões da Copaoba. Na busca por transformar o município em um polo de atração turística na região, percebe-se uma insistência em manipular as narrativas históricas, como se observa no Projeto de Lei nº 446, de 2019, que classificou Serra da Raiz como município de interesse turístico:


“A região que compreende o município da Serra da Raiz é vinculada ao histórico episódio ocorrido na época da colonização da Paraíba no ano de 1574 denominado de Tragédia de Tracunhaém. Segundo historiadores, foi nessa região do município da Serra da Raiz que o índio Ininguaçu, teria arregimentado parte de sua tribo em busca de sua filha Iratembé, capturada por um mameluco que transitava na região da Serra da Copaoba. Os índios que eram da nação indígena dos potiguaras foram em direção ao Engenho Tracunhaém do proprietário Diogo Dias, na região que atualmente compreende a cidade pernambucana de Goiana, e lá teria ocorrido um grande massacre contra os moradores que viviam no engenho.” (Página 2 da lei citada).

O discurso sobre o passado, utilizado para atrair turistas, não pode se sobrepor à historiografia contemporânea sobre a história da Paraíba. Não se trata apenas de divulgar o nome de Iratembé, mas de contribuir para a perpetuação de um discurso que, ao longo do tempo, buscou objetificar o corpo da indígena citada por Frei Vicente do Salvador. Um discurso que, por vezes, erotizou seu corpo, como demonstrado ao longo deste artigo. Trata-se de mais uma forma de violência simbólica direcionada aos indígenas Potĩguara.

Capa do livro em que o artigo foi publicado.

O artigo, intitulado “Iratembé: a gestão de um corpo indígena enquanto mito fundador da Paraíba”, foi escrito pelos historiadores Waldeci Ferreira Chagas e Júlio Cesar Miguel de Aquino Cabral, ambos vinculados ao Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi) da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Campus III. O trabalho contou também com a colaboração do historiador João Paulo Ferreira da Silva, igualmente integrante do Neabi. Em diálogo com as pesquisas de Margarida Maria Santos Dias, Regina Célia Gonçalves e Sylvia Brito, o estudo contribui para uma compreensão mais ampla dos processos de construção da identidade histórica do estado da Paraíba.

O texto integra o décimo terceiro capítulo do livro Escritos de Corpus: carnes, tempos, histórias, sofrimentos, organizado por Durval Muniz de Albuquerque Júnior, Álvaro Luis Lins e Thiago Venícius de Sousa.

O livro está em período de pré-venda no site da Editora Debulhar.

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