Recentemente, publiquei neste espaço a reflexão “Xenofobia e desculpa: como o brasileiro usa o antirracismo para esconder a própria decadência“, gerando um debate necessário sobre os limites do respeito, da rivalidade e da hipocrisia social.
Alguns dias depois, no instagram, encontrei uma publicação que muito me chamou atenção. Era o relato de um argenito radicado no Brasil sobre sua vida em solo brasileiro. Li atenciosamente e tocado, tentei comentar, mas a publicação estava com comentários restritos. Infelizmente ao conversar com o autor, não foi difícil saber os motivos do fechamento.
Enviei meu texto para ele e começamos a conversar. Nicolas Delavy é filho de artistas que cruzaram a fronteira nos anos 1980 fugindo das cicatrizes da ditadura e das Malvinas. Ele enviou-me uma resposta ao meu texto, no qual compartilha o que foi chegar criança a uma praia brasileira sem falar português, enfrentar o bullying, esconder suas origens por vergonha e, finalmente, encontrar no surfe um espaço de verdadeira integração humana.
Publico (com autorização) o relato de Nicolas na íntegra a seguir. É uma leitura indispensável para quem deseja entender o impacto real que a intolerância cotidiana causa na vida de uma criança e a lição de maturidade que o esporte pode (e deve) nos ensinar.
Peço que leia com atenção, respeito, maturidade e disposição mental para aprender, refletir e mudar…
Olá, Caco.
Li sua matéria sobre a xenofobia contra o povo argentino publicada no Canal do Povo e senti vontade de compartilhar um pouco da minha história. Como argentino vivendo no Brasil há quase 40 anos, acredito que minha experiência possa contribuir para a reflexão que você propôs.
Meu nome é Nicolas Delavy. Sou o caçula de uma família argentina. Meu pai era artista plástico e escultor, e minha mãe foi professora da rede pública, trabalhando inclusive em comunidades rurais e indígenas do norte da Argentina.
Em meados dos anos 1980, pouco tempo depois da ditadura militar e da Guerra das Malvinas, meu pai recebeu um convite do Governo do Paraná para expor uma série de obras que criticavam o regime militar argentino. Meus pais vieram para Curitiba e acabaram se apaixonando pelo Brasil. Pouco tempo depois, alugaram uma casa em Itapoá e decidiram trazer a família.
Eu tinha cerca de oito ou nove anos quando cheguei ao Brasil. Entrei na única escola da praia sem falar, ler ou escrever uma única palavra em português. O choque cultural foi imediato.
Rapidamente virei alvo de piadas e provocações. Ouvir “volta para a Argentina” era algo frequente. Nos primeiros meses eu chorava quase todos os dias e não queria ir à escola. Como muitas crianças fazem para sobreviver socialmente, passei a tentar me adaptar da forma mais rápida possível.
Aprendi português em menos de um ano, sem sotaque perceptível, e comecei a esconder minha origem. Passei a sentir vergonha de ser argentino. Tinha vergonha da minha cultura, da minha família e de qualquer coisa que me diferenciasse dos demais.
Como meus pais eram artistas e meus irmãos mais velhos consumiam muita música, cinema e literatura, eu cresci cercado pela cultura argentina. Mas comecei a me afastar de tudo isso. Evitava músicas, filmes e referências argentinas porque acreditava que aquilo me tornava um alvo.
O futebol também acabou entrando nessa conta. Com o tempo, percebi que grande parte da hostilidade que eu recebia tinha relação com a rivalidade futebolística entre Brasil e Argentina. Isso criou em mim uma rejeição ao futebol que permanece até hoje.
Enquanto isso, encontrei outro caminho no surfe.
Meus irmãos surfavam, e eu os admirava profundamente. No ambiente do surfe encontrei algo diferente. Havia rivalidade esportiva, mas não aquele sentimento de hostilidade que eu via associado ao futebol. Vi pessoas admirando atletas de diferentes países, aprendendo umas com as outras e compartilhando experiências.
Acabei dedicando minha vida a esse universo. Hoje trabalho com atletas profissionais e marcas ligadas ao surfe.
O Brasil conquistou oito títulos mundiais no surfe, e eu torço pelos brasileiros. Mas também consigo admirar seus adversários. O esporte me ensinou que é possível apreciar a excelência de alguém sem transformar isso em uma guerra de identidade nacional.
Talvez isso tenha relação com a educação que recebi dentro de casa. Cresci cercado por arte, livros, discos e filmes de diversos países. Aprendi cedo que valorizar a produção cultural do meu país não exige diminuir a dos outros.
Por isso, quando vejo brasileiros e argentinos reduzindo pessoas a estereótipos por causa de uma partida de futebol, lembro da criança que fui. Uma criança que aprendeu a esconder suas origens para evitar humilhações.
Não acredito que o futebol seja o culpado por si só. Mas acredito que vale refletir sobre o que parte do esporte profissional se tornou: um ambiente onde muitas vezes a paixão é explorada por interesses econômicos gigantescos e onde a identificação com clubes e seleções acaba servindo como desculpa para comportamentos que não aceitaríamos em outros contextos.
A principal lição que ficou para mim é simples: quando você pratica um esporte, conhece pessoas reais. O adversário deixa de ser um símbolo e passa a ser um ser humano. Talvez por isso eu tenha encontrado no surfe uma experiência tão diferente daquela que vivi em torno do futebol.
Um abraço,
Nicolas Delavy



