Assistir ao movimento de parte da torcida brasileira nestes dias de Copa do Mundo, especialmente quando se apoxima a final entre Espanha e Argentina é um exercício doloroso de constatar a profundidade da nossa hipocrisia. Em um país que se gaba de ser o “país do futebol”, o que vemos hoje não é amor ao esporte, mas a projeção de uma frustração profunda, disfarçada de um suposto combate ao racismo que, no fundo, ignora as próprias feridas que escondemos.
O que se vê é uma xenofobia descarada contra o povo argentino. Sob o pretexto de combater o racismo, brasileiros destilam ódio contra uma nação inteira. É preciso dizer: essa generalização é burra e desonesta. O Brasil é um país que convive diariamente com níveis alarmantes de racismo, xenofobia, homofobia e tantos outros cânceres sociais. No entanto, sabemos que um país não se resume aos seus piores atos ou aos preconceitos de parte da sua população. Por que, então, aplicamos aos argentinos uma régua que repudiamos para nós mesmos? Praticar o preconceito para, ironicamente, “lutar contra ele”, revela que o ódio não é uma questão de princípios, mas de conveniência.
Enquanto o dedo aponta freneticamente para Buenos Aires, o olhar se desvia convenientemente para Madri. Onde está a mesma indignação quando atletas brasileiros sofrem racismo escancarado na Espanha? Onde está a fúria contra as práticas migratórias hostis que brasileiros enfrentam ao tentar entrar em solo espanhol? O silêncio é ensurdecedor. Para muitos, o racismo só é digno de combate se servir como combustível para a rivalidade futebolística. Se o racismo ocorre no país que enfrentamos na final, ele é convenientemente ignorado em nome de uma torcida que, no fundo, é movida pela dor de ver o vizinho chegar onde nós falhamos.
A perseguição a Lionel Messi ilustra bem esse processo de “idiotização”. Incapazes de lidar com a grandiosidade de um jogador que define uma era, tentam diminuir seu valor e inventam teorias da conspiração que apenas expõem a falta de humildade do torcedor médio.
A verdade, crua e incômoda, é que esse ódio é o escudo de um futebol brasileiro que perdeu o rumo. É mais fácil atacar a Argentina do que encarar o câncer que corrói o nosso esporte: a incompetência administrativa e a entrega absoluta ao mercado de apostas. Não estamos falando apenas de um problema periférico; falamos de protagonistas do nosso futebol, ídolos de uma nação, envolvidos diretamente em escândalos de apostas que mancham a integridade do jogo. Ou falamamos ainda da tristeza de ver um dos maiores times do Brasil (o meu time de coração) aceitando patrocínio de site de conteúdo adulto. Não perdemos o prumo? Não estamos sem rumo?
Estamos diante de um futebol pífio, incapaz de se reinventar, mas que encontra na xenofobia um refúgio para não precisar admitir que a nossa hegemonia ficou no passado. Gritar contra a Argentina não fará a seleção brasileira jogar melhor, nem limpará a imagem dos nossos clubes e atletas. Enquanto a torcida brasileira preferir a cegueira da soberba ao espelho da realidade, continuaremos sendo protagonistas apenas do nosso próprio atraso.



