Há algo profundamente preocupante na forma como Lula tem tratado a religião no debate político. Ao comentar uma notícia falsa sobre Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida, o presidente foi informado de que se tratava de fake news, mas preferiu dizer que “não sabe” se era falso e, em seguida, puxar para o centro da conversa a acusação de que já houve evangélico chutando a imagem da santa. O episódio expõe, no mínimo, uma retórica que coloca evangélicos sob suspeita enquanto Lula se apresenta como defensor dos católicos.
O problema não é defender Nossa Senhora Aparecida e a fé católica. O problema é instrumentalizar a fé para alimentar uma divisão religiosa que interessa à disputa política. Católicos não precisam de Lula para proteger sua devoção, assim como evangélicos não podem ser transformados em inimigos dos católicos por conveniência eleitoral. Quando uma mentira é desmentida, o dever de qualquer autoridade pública deveria ser rejeitá-la, não aproveitar sua repercussão para reacender ressentimentos religiosos.
A crítica, portanto, é dura porque o episódio toca em algo que deveria estar acima da política: a fé. A verdade é que, Lula ultrapassa uma linha perigosa quando trata evangélicos com uma retórica que pode alimentar intolerância e, ao mesmo tempo, tenta ocupar o lugar de guardião político da fé católica. A religião não deveria ser munição eleitoral, muito menos instrumento para colocar brasileiros de uma tradição religiosa contra brasileiros de outra.
E é justamente aí que a postura se torna indignante. Na disputa pelo poder, a política pode até ser dura, mas não deveria transformar a fé das pessoas em ferramenta de manipulação. Quando isso acontece, parece que se está disposto a fazer até o que o diabo duvida para preservar o poder, inclusive explorar uma mentira já desmentida para reacender uma velha guerra religiosa.
A fé merece respeito. Católicos e evangélicos também. O que merece crítica é qualquer tentativa de transformar aquilo que deveria unir pessoas em combustível para uma disputa pelo poder.



